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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

QUANDO O ARTISTA, A ARTE E O ADORADOR OCUPAM O LUGAR DE QUEM DEVE SER ADORADO - Por Nelson Bomilcar

QUANDO O ARTISTA, A ARTE E O ADORADOR OCUPAM O LUGAR DE QUEM DEVE SER ADORADO - Por Nelson Bomilcar

Caetano em uma de suas canções mais inspiradas sobre São Paulo, lembrou-nos a presença e força de Narciso no coração das pessoas, clamando por aceitação e reconhecimento ou determinando nossos conceitos estéticos do belo.

No princípio do século XX o conceito de personalidade começou a circular no meio cinematográfico. Imaginava-se que a personalidade era constituída das qualidades que caracterizavam as pessoas famosas nesse novo ramo de entretenimento. Esses eram os "astros" que se destacavam na multidão: narcisistas obcecados por chamar atenção para si mesmos.

A propaganda foi usada para incitar e manipular o consumo e seus bens, produção que aumentou após a Segunda Guerra Mundial. Ela procurava ditar o que deveríamos "precisar", "desejar", e o que nos "tornaria felizes". O culto da auto-realização tornou-se um alvo terapêutico e o culto da pessoa era o caminho da felicidade.

Estas noções impregnaram o contexto religioso e social de maneira geral. Noções de auto-importância acentuavam conceitos fantasiosos de liderança e da arte, fantasias de sucessos, poder, brilhantismo e beleza ilimitados, que frustram os que perseguem a realização da alma. Exibicionismo gerando falsas expectativas, sentimento de que o mundo "lhe deve algo" e quando a pessoa não é reconhecida, sente-se inferior, humilhada, com vergonha por não ter conseguido "vingar".

Cria-se um ambiente favorável para a exploração interpessoal, busca-se a competição e o desejo de ver possíveis rivais frustrados e inferiorizados, desaparecendo a empatia e a sensibilidade com os outros. Junte o narcisismo, a propaganda e o contexto de comércio que se cria, e temos uma "equipe" nociva, destruidora e conspiradora contra as boas motivações, valores éticos e morais, e valores do Reino de Deus.

Todos os que atuam na área da música e da adoração, principalmente artistas, autores, compositores e grupos que deixaram registrados suas produções em CDs, DVDs, fitas, livros, etc, passam pela experiência da exposição de sua criação, arte e pensamento em busca também de reconhecimento e aceitação. Junto com a fome de sucesso, caminham em agenda paralela e não oficial (porém é a realidade do coração humano), pois a resposta "oficial" e politicamente correta, se argüidos, à buscar a glória de Deus e ser uma benção para os outros. Resposta automática e instantânea.

Mas, as tentações se apresentam sempre. Como diz o querido pastor Enéas Tognini, "elas continuam as mesmas: a barra de ouro, a barra da saia e a coroa de glória". Pastores e conferencistas tem vivenciado esta experiência também, quando suas mensagens e palestras são transformadas em "produtos" para serem comercializados. As pressões aparecem de todos os lados, dentro e fora, para serem transformados em objetos de culto e adoração, através do sucesso ou da aceitação na mídia.

Vê-se pastores, escritores e líderes de louvor conceituados, participando em programas que pregam o que eles mesmos não acreditam, ou que seus próprios ensinos ou cânticos delatam, mas vestidos de cara de pau e incoerência, fazem tudo para não desprezarem a "oportunidade" de sucesso, aceitação e venderem mais. Tudo muito triste, pois perdem credibilidade e deixam de ser referenciais. O engano da falsa unidade!

Os modelos de fora que aportaram em nossas livrarias e igrejas fomentam o reconhecimento, o culto ao ego; os dons que devem "brilhar" e "serem promovidos", as metas que precisam ser atingidas, e você não pode ser um Zé Mané, discreto, sem aspiração de aparecer, que é logo descartado ou ignorado. Buscar o reconhecimento e sucesso pode alavancar crescimento de nosso selo, gravadora, igreja, missão ou ONG e não podemos abandonar este caminho, dizem alguns.

O Dr. James Houston, fundador do Regent College no Canadá, ensinou que "a última manobra do ego é o cultivo do narcisismo espiritual, isto é, o uso do inconsciente da prática, para aumentar ao invés de reduzir sua própria importância; a busca espiritual e a coisas e práticas espirituais passa a ser um processo ou jornada de auto-engrandecimento, ao invés de uma jornada de aprofundamento da humildade".

Calvino e Wesley mostram que, quando não buscamos a felicidade e a glória de Deus, transformamos a vida religiosa em auto-promoção. A pessoa acredita que Deus a escolheu especialmente para ter habilidades excepcionais e fazer coisas especiais para Ele. O cara que começou aquele "grande ministério", juntou tremendo patrimônio, o homem do descarrego 110 e 220V, que luta contra os demônios B ou C, o músico que enche estádios e aeroportos, �酅olha o narcisista aí, gritando e precisando ser satisfeito.

Hoje, gravadoras, editoras e igrejas evangélicas copiam os modelos secularizados das gravadoras e editoras seculares (até com competência) sem critérios, modelos de gestão em seu negócio, buscando transformar o artista, o líder, ou a denominação na "sensação" nunca vista antes, que tem "uma unção" que ninguém nunca teve, que não deve ter contato pessoal com os outros simples mortais cristãos apreciadores de seu trabalho, apenas no meio da massa. Contam com nossos corações narcisistas, consumistas e sedentos de sucesso.

Vivi a experiência duma geração que fazia tudo por amor mesmo (pastores, missionários, jovens, artistas ou não) e quanto mais desafios, melhor. Quando nos achávamos mesmo servos (inúteis, porém alegres), movidos em servir ao Senhor pela causa que abraçamos, constrangidos pelo amor de Deus por nós, ou pelo amor às pessoas que atingíamos com nosso ministério e com nossa música, ficávamos realizados.

Tempos em que tínhamos alegria de ter contato com o público o tempo todo e não éramos transformados em seres impessoais, não ficávamos reclusos por orientação dos "empresários" evangélicos (não existiam ainda), nos hotéis cinco estrelas ou spas logo após as "gloriosas apresentações", diga-se de passagem, devidamente pagas com cachês astronômicos.

Quer ter contato com o artista ou pregador? Lamento, tente mandar um e-mail, entre no site dele, inscreva-se no seu "fã" clube, aguarde aquela noite de autógrafos quem sabe em sua cidade, e não se esqueça, ore por ele e compre seu material!!! Se o trouxermos para nossa cidade para um evento, provavelmente, você não chegará perto de tamanha "efem�ride", pois foi mitificado e se tornou objeto de adoração, alguns com segurança e tudo.

Estamos sempre tentando cultuar o "narciso" que existe dentro de nós, o nosso ego, até porque, ele teima em comandar nossos sonhos, aspirações, e intenções do coração. Esta é uma herança indiscutível de nossa natureza adâmica. Natureza que busca o reconhecimento de sermos considerados pequenos deuses, objetos de culto e admiração, sem noção de nossa finitude, do Deus Infinito a quem servimos, e da realidade do sucesso transitório e efêmero. Somente o Espírito Santo para dominar "este espírito".

Pode parecer que não defendo o sustento digno de seus trabalhadores e dos artistas, que tem sido, diga-se de passagem, explorados pelas próprias gravadoras e igrejas ao longo dos anos ou que acho não ser possível mostrar a criação para os outros. Não é este o raciocínio ou intenção deste artigo.

Temos que honrar aqueles que tem procurado viver seriamente e honestamente da arte e da pregação. E para isto devemos ter critérios e maturidade. Tenho um amigo muito chegado, grande pregador, que disse que agora ele "só canta" e a mensagem vai "de lambuja", para não ser humilhado após conferências e congressos vendo os artistas ganhando "polpudos cachês" e ele, que "somente" pregou, ganhar aquela oferta vergonhosa de se dar.

Mas temos que reconhecer, na "linguagem de hoje", Jesus teria que espantar os vendilhões do templo, das sacadas do templo, do telhado do templo, das imediações do templo. A pergunta que não quer calar: como lidar para que não se instale e se cultive o Narciso em nossas vidas? Quais vacinas para repelir este "vigoroso" vírus do sucesso e autopromoção, que muitas vezes pode nos afastar do Deus que quer ser adorado e reconhecido? Vírus solto no meio dos que estão na adoração, arte ou mesmo ministérios.

Este é o retrato: qualquer um cria ministério ou monta uma igreja, qualquer um tem CD, publica livro, fita, do zelador ao tesoureiro da igreja, do bispo cantor ao segurança da igreja, da filha do diácono ao genro do coordenador da escola dominical. Somos transformados em produtos agora, deixamos de ser pessoas, agora aspirantes a adorados e reconhecidos, roubando muitas vezes o lugar Daquele que deveria ser adorado, admirado e cultuado. Conformando-nos facilmente com isto, amoldamos a nossa consciência e ética cristã de forma distorcida e justificamos tudo e a todos. Temos que resistir! Deus nos ajude!

Nelson Bomilcar é um dos idealizadores do ISA. Para saber mais acesse em "Quem Somos". Ou a sua página pessoal, www.nelsonbomilcar.com.br

Fonte: http://www.seradorador.com.br/index.php?pag=artigos&acao=Ler&id=32

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O DIA EM QUE SÉRGIO PIMENTA CHEGOU NO CÉU

PAPO NO BOTEQUIM CELESTE

ou

O DIA EM QUE SÉRGIO PIMENTA CHEGOU NO CÉU

Por Isaias de Oliveira

Aquele parecia ser apenas mais um dia tranqüilo em terras celestiais. Quem corresse os olhos pelo lugar, veria Abraão, Paulo e Jeremias conversando animadamente enquanto praticavam o cooper matinal ou Moisés narrando pela milésima vez, a um grupo de recém chegados, toda a epopéia da travessia do Mar Vermelho. 

Já no barzinho da Academia de Poetas Celestes, a animação corria solta enquanto nas caixas de som rolavam músicas do disco de Vento em Popa. Contrastando com a tranqüilidade das músicas, uma angelical garçonete transitava apressada entre as mesas carregando bandejas de papos de anjo, pastéis de santa clara e outras iguarias divinas. Numa mesa um pouco mais afastada, dois homens conversavam calma, serena e tranqüilamente enquanto beliscavam toucinhos do céu: eram Janires e Jairinho. 

A conversa seguia o rumo de uma nova parceria musical quando a garçonete se aproximou com ares de novidade. Depositou a bandeja vazia na mesa e curvou-se antes de dar a notícia.

  • - Vocês já sabem quem chegou na área? – sem esperar resposta, a garçonete foi logo dizendo – Sérgio Pimenta.
  • - Sérgio Pimenta? - perguntou Janires dando um salto da cadeira.
  • - Nosso poeta maior? – diz Jairinho imitando o gesto de Janires
  • - Você tem certeza, irmã? – indaga Janires ainda perplexo.
  • - Acabei de cruzar com ele nos corredores – confirma a garçonete meio alvoroçada – não foi ninguém que me contou não, eu vi.
  • - Que coisa, rapaz – comentou Jairinho deixando-se cair na cadeira – moço tão novo...
  • - É nóis não era? – emendou Janires meio gaiato, depois, completou um pouco mais sério e sentando-se. – Cara, não sei se choro ou dou risada. Pô, Jairinho, o cara não está mais na terra... vai ficar com a gente, agora... Maneiro.
  • - Traz ele pra cá – pede Jairinho já puxando uma outra cadeira pra junto da mesa.
  • - E já diz pra ele trazer um violão – completa Janires. 
  • - Assim que ele terminar de preencher as papeladas lá no escritório – diz a garçonete enquanto recolhia com destreza pratos e taças que estavam sobre a mesa.
  • - Santa burocracia – comenta Janires sem esconder o sorriso.
  • Minutos depois a solícita garçonete chega trazendo o novo hóspede que é recebido calorosamente pelos dois. Depois das apresentações formais e abraços os três sentam-se à mesa. A garçonete chega logo em seguida com a bandeja cheia e abastece a mesa com fartura.
  • - É sempre assim, por aqui? - pergunta Pimenta com a inconfundível voz grave e o sorriso largo iluminando a face.
  • - Não – explica, Jairinho – só quando chegam as celebridades. Os três caem na risada dando uma idéia de como seria a convivência entre eles.
  • - Então, irmão, me conta como estão as coisas lá embaixo – perguntou Janires tocando levemente o braço de Pimenta.
  • - Não mudou muito desde que vocês chegaram aqui, não – respondeu - tem muita gente achando que está fazendo música, outras mais preocupadas com grana, prestigio, sucesso e tem aquela turminha de sempre, pequena, lutando com disposição para que a música cristã não caia totalmente na mesmice.
  • - É, então não mudou muita coisa mesmo... – ponderou Jairinho – é porisso que eu estava pensando numa coisa, você vai fazer uma falta danada lá embaixo...
  • - Vou não, Jairinho, ficou muita gente boa por lá. Tem o João Alexandre, o Jorge Camargo, Rehder, Bomilcar, Guilherme, Gerson Ortega, Josué Rodrigues, enfim...
  • - Até aí você tem razão, mas minha preocupação, Pimenta, é com o futuro – diz Janires cofiando a barba e meio introspectivo – com o futuro... Quem vai trilhar os teus passos? Esse lance dos grandes esquemas de gravadoras, super produções, da grana, da vaidade acima dos interesses do Reino vai acabar complicando tudo. O que tú acha?
  • - Janires – começou Pimenta enquanto se ajeitava melhor na cadeira – quando eu estava vindo pra cá esta preocupação bateu forte em mim também. Afinal de contas esses caras todos que citei já não são mais crianças. Mas aí lembrei de uma noite em que resolvi ir a uma igreja no subúrbio do Rio. Lugar pobre, meio esquecido. Fui pra assistir mesmo, não ia cantar. E lá, cara, conheci um moço, quase menino, que cantou sozinho com um violão até meio detonado. A música daquele menino, que me pareceu muito tímido, me tocou tanto, passou tanta verdade, tanta poesia... dava pra sentir claramente que a graça de Deus estava sobre a vida dele, entende? Cada música linda que ele compõe... saí de lá sem poder conter as lágrimas.
  • - Sério, vélho? – questionou Janires se aproximando ainda mais de Pimenta. – Conta mais.
  • - Pois é, rapaz – continuou Pimenta – meio de longe continuei acompanhando os passos do moço e as noticias que me traziam eram as melhores possíveis. Ele é cristão desde garoto, é sério, comprometido com o reino mesmo. Até acho que ele foi tocado pela tua música, Janires, teus rítmos, tua descontração. O menino lá é cheio de brasilidade.
  • - Então puxou pra tú, também, irmão – complementou de primeira Janires dando uma sonora gargalhada.
  • - É, pode ser – pensou Pimenta. O que eu sei é que vê-lo e ouvi-lo cantar, com toda sua simplicidade, humildade, poesia e talento me encheu de esperanças.
  • - Me diz uma coisa, Pimenta – questionou Jairinho – É como é o nome do moço?
  • - O nome dele é Gerson Borges, carioca como eu, nascido no subúrbio.
  • - Tem som até no nome – brincou Janires – já é um bom começo.
  • Sérgio Pimenta riu com gosto, depois sorveu com prazer o último gole que restava na taça e conclui.

- E isso não é tudo, depois, conversando com amigos, fiquei sabendo de outros caras tão jovens quanto ele que estavam começando a despontar aqui e ali. Caras com o mesmo talento do menino que eu conhecera. Me falaram de um tal de Silvestre em São Paulo, uma dupla de meninas que cantavam muito, Cíntia e Silvia, se não me engano, um rapaz chamado Tiago, de Campinas, uns caras do Nordeste, Diamanso e Carlinhos Veiga, um poeta chamado Stênio...

- Não diga, rapaz – diz um espantado e feliz Jayrinho.

- Toda semana ouvia um nome novo: Glauber, Priscila, Jonas, Fabinho, Gladyr, tinha até um argentino fazendo música brasileira com competência, não me lembro o nome dele... Cláudio!!, lembrei. 

Janires, a esta altura estava de pé, visivelmente emocionado e já havia enchido as taças novamente. Depois de servir Pimenta e Jayrinho, ergueu sua taça na direção dos amigos como que propondo um brinde. 

- Você não sabe o quanto me alegra ouvir isto, Pimenta. Tuas noticias me encheram de esperança. Que Deus levante, a cada dia, gente em todos os cantos desse nosso Brasil sofrido. Gente cheia de graça e talento, que coloque Seu reino acima de todas as coisas. Que vivam pra servir ao Mestre das Canções, se servindo dos nossos mais variados ritmos e sons.

- Falou bonito, moço – diz Pimenta enxugando os olhos marejados na manga da camisa.

- Falou tudo – completa Jayrinho

Os três brindam, bebem, sentam-se e continuam o papo que tinha tudo pra durar uma eternidade.

Fonte: http://www.buenaonda.art.br/html/papo_no_botequim_celeste.html